Outra carta, 11 meses se passaram
Hoje se completam onze meses do seu nascimento. A sensação é de que o primeiro mês teve noventa dias, o segundo sessenta e os nove meses seguintes se passaram em quarenta dias. Aliás, estamos na quaresma, e o seu aniversário que se aproxima cairá em um Domingo de Ramos — esse dia um tanto estranho, de caráter festivo mas que anuncia a paixão que há de chegar em breve.
Tenho pensado que todas as coisas que valem a pena tem esse caráter agridoce. Antigamente, em um tempo em que a mamãe ainda nem era nascida, os noivos vestiam preto para se lembrar que, mesmo em meio a grande alegria das núpcias, eles estavam se voluntariando a morrer para o mundo — e talvez até enfrentar a morte do corpo — pelo bem da esposa que estava recebendo e dos filhos que o Senhor pudesse dar.
Os aniversários são uma comemoração pela vida que Deus nos deu, e como é bom celebrar com aqueles que amamos! Mas neles também há um gostinho de finitude.
Os anos que se passaram se foram e não voltam mais, a cada dia vamos gastando a vida que recebemos e é muito importante escolher como iremos gastá-la. E eu não poderia estar mais feliz por ter escolhido dedicar a minha vida ao seu pai e a ti, meu filho.
Fico olhando suas fotos de recém nascido e lembrando do peso suave do seu corpinho magro que cheirava a sono e leite fresco. Me lembro das mãos pequeninas que se moviam sem direção, e também de me questionar se aqueles olhinhos que se fixavam em mim sabiam quem eu era — não me lembro em que momento tive a certeza de que sim, mas foi lá no comecinho, quando seu rosto ainda era magro, seus olhos grandes e seu nariz largo. Hoje o rosto cresceu e os traços parecem muito menores do que antes.
O cheiro também mudou, hoje o que prevalece é o aroma salgado e um pouquinho azedo do seu suor, mas ainda é um cheiro de bebê. Te abraço muitas vezes ao dia para tentar guardar tudo na memória, mas eu já não consigo me lembrar com clareza de como era nos primeiros dias. Tento cheirar discretamente os recém-nascidos dos outros e tento encontrar lá a sua coxinha magra, mas não encontro. Tudo isso já foi e jamais poderei ter de volta o meu pequeno Antônio que amava beijinhos e Cecília Meireles.
Tudo isso me faz pensar sobre o tempo, e como dizia Santo Agostinho — não tenho certeza se foi mesmo ele, nem se estou parafraseando corretamente — o tempo é simples quando não penso nele, mas extremamente complexo quando penso.
Eu ia deixar por isso mesmo, mas não me aguentei e fui pesquisar (só consegui recorrer rapidamente ao Google porque estamos no colégio e você está dormindo no meu colo, mas prometo consultar os livros mais tarde — com “tarde” eu quero dizer hoje a tarde, ou semana que vem, ou em algum outro ano entre a escrita desse texto e o desenvolvimento da sua capacidade de compreendê-lo).
O que é o tempo? Quando quero explicá-lo não acho explicação. Se o passado é o que eu, do presente, lembro, e o futuro é o que eu, do presente, antecipo, não seria mais certo dizer que o tempo é só o presente? Mas quanto dura o presente?
Ainda não meditei no assunto com seriedade, mas estou com a impressão de que o tempo é a fonte de muitos dos nossos sofrimentos terrenos. Prometo pensar mais, buscar explicações e melhorar minha capacidade de síntese para quando você começar com os “porquês”.
Como de costume, tive vontade de conversar com você enquanto te observava dormir, mas você ainda não consegue entender o que eu falo (inclusive, acha todos os “não” que digo, de forma enfática e séria, muitíssimo engraçados), então decidi escrever.
Só queria dizer que te amo muito, sinto saudade do que já passou e aproveito cada segundo ao seu lado.


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